O +jabá foi saber o que acontece com uma manifestação organizada pela internet. O resultado que se viu na Esplanada dos Ministérios no último sábado foi uma mobilização (por enquanto) espontânea e descentralizada
por Wanderley Neves (6J) , de Brasília
Na primeira vez, foram sessenta; na segunda, vinte. Já na tarde do último sábado (15), foi diferente. Cerca de duzentas pessoas marcharam em volta do Congresso Nacional para protestar contra o presidente do Senado Federal, José Sarney (PMDB/AP). Pediam a prisão, a cassação, a renúncia, a devolução do Maranhão; gritavam palavras de ordem em uma ciranda e entoavam o Hino Nacional ao ritmo acelerado das palmas com as bochechas pintadas de verde e amarelo.
Manifestações estavam marcadas para ocorrerem simultaneamente em dezoito cidades do País. A grande marca de todas elas foi a descentralização que caracteriza as mobilizações via internet.Inspirado no movimento organizado por palmeirenses no Twitter pela demissão do técnico Wanderley Luxemburgo, o jornalista e produtor em Porto Alegre Moah Sousa começou no final de junho a postar em seu perfil mensagens com a hashtag #forasarney. A partir disso, o caminho seguido foi aquele comum dos fenômenos virais da Internet: os contatos de Moah passaram a utilizar a tag, o que fez com que mais pessoas passassem a usá-la. Assim foi crescendo a corrente que resultou nos protestos de sábado.
A divulgação, no entanto, não se conteve aos limites do Twitter. Vandré Melo, 22, e Daniel Faria, 23, estudantes de Direito, souberam da manifestação através de mensagens recebidas pelo Orkut. Fazendo as contas, Vandré dizia ter repassado a convocação para todos os contatos dos seus e-mails e os amigos do Orkut, o que daria umas duas mil mensagens. Esse jovem com nome de guerreiro de outras lutas estudantis marchava bem à frente dos manifestantes, segurando um dos lados da faixa que dizia “Investiguem, julguem e prendam Sarney”.
Do outro lado da faixa estava Pedro Mascarias, de 16 anos. Estudante do Ensino Médio, ele é um dos muitos exemplos que havia ali dum outro estágio da divulgação do movimento. Colegas do colégio particular em que Pedro estuda imprimiram e distribuíram folhetos da campanha e divulgaram nas salas de aula. Mas o que o revoltou e mais o motivou a marchar sob o sol do Planalto Central no último sábado foi a prisão de sete estudantes pela Polícia Legislativa na última quinta-feira (13).
Os estudantes que passaram três horas nas dependências da Polícia no Senado faziam parte de um grupo maior de 25 pessoas que depois de tentar por vários caminhos, conseguiu entrar no Congresso pelo Anexo 3 da Câmara dos Deputados. De lá, foram até o Salão Azul do Senado Federal, onde começaram a discursar e a exibir cartazes contra Sarney, o senador Paulo Duque (PMDB/RJ), presidente do Conselho de Ética da Casa, e toda a Mesa Diretora. O protesto e a prisão foram transmitidos ao vivo pela rádio CBN e estavam nos jornais da noite e nos da manhã seguinte.
Organizados
Essa e outras ações realizadas nas últimas semanas no Senado Federal foram planejadas e executadas pelo Comitê Independente de Mobilização e Atvismo (CIMA). Em entrevista ao Contas Abertas, um dos fundadores, o estudante de Relações Internacionais André Dutra, afirma que o CIMA começou por causa do “Fora Sarney” mas que deve continuar numa luta mais abrangente pela ética no Congresso. Entre os integrantes há caras conhecidas do movimento estudantil de Brasília e militantes partidários, como o próprio Dutra, que faz parte da Juventude do PDT. O estudante de Jornalismo Danilo Soares, 19, outro dos integrantes do CIMA, minimiza a influência de partidos no comitê e afirma que os seus companheiros não participam da manifestação como militantes.
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