+jabá!

Um jornalístico organizado por alunos do curso de Comunicação Social da UFC

Cadê a feirinha que vivia aqui?

Outros rumores

O remanejamento da tradicional feira de artesanato da Beira-Mar para a Praia de Iracema gera polêmica: o Sindicato dos Artesãos comemora aumento nas vendas; os artistas plásticos, ao contrário, alegam prejuízo.

por Thiago Fonsêca, colunista do +jabá

Desde o dia 24 de setembro, artistas da pintura e do artesanato que trabalhavam e expunham suas obras na Beira-Mar foram transferidos(as) para a Praia de Iracema. O remanejamento é uma ação da Secretaria Executiva Regional II (SER II) e obedece a uma recomendação do Ministério Público para que a área de maior visibilidade da capital cearense seja reordenada. Pareceu haver um acordo entre a prefeitura e o Sindicato dos Artesãos Autônomos do Estado do Ceará (Siara) sobre o deslocamento. Mas a mesma conversa não deve ter ocorrido com os(as) artistas plásticos(as).

Cerca de um mês após o remanejamento, no dia 28 de outubro, um grupo de artistas plásticos(as) voltou ao calçadão da Beira-Mar, mas não para reinstalarem suas obras, e sim para protestarem contra a transferência a qual haviam sido submetidos(as). Seus quadros foram queimados pelas próprias mãos pintoras não para que seus nomes fossem esquecidos, mas para chamar a atenção, porque essas telas necessitam de público. As obras não morrem sem ele, mas nossos(as) artistas, sim. Se há um projeto para a revitalização da Beira-Mar, teme-se pelo estado terminal da Praia de Iracema.

Essas duas praias, que em um passado não tão distante, mas passivo de ser olvidado, pertenciam a um só corpo litorâneo, recheado de atrações para gente de todas as idades, já há algum tempo parecem ter se transformado em dois ambientes distintos, como se houvesse uma barreira invisível, uma fronteira incômoda, uma cerca imoral avisando “fim da Beira-Mar” ou “início da Praia de Iracema”. Segundo a prefeitura, o deslocamento da tradicional feirinha de artesanato, residente na Beira-Mar desde a década de 80, para a praia de Iracema complementa o “Projeto de Requalificação da Praia de Iracema” para que ela volte a atrair fortalezenses e turistas.

Ainda segundo a prefeitura, um rápido balanço deste primeiro mês de feirinha na praia de Iracema confirma a vantagem do remanejamento tanto para os(as) artistas como para o ambiente. Diz ela que o novo espaço onde estão instaladas as obras permite uma melhor visualização delas e uma circulação mais livre da população. Outro ponto positivo levantado foi o de que a criação de um espaço apropriado e voltado apenas para a produção artística local impede a comercialização de produtos industrializados, evitando a descaracterização do artesanato cearense que o(a) turista quer de lembrança.

O êxito é confirmado pela presidente da Siara, Marie Araújo, que contabiliza um aumento de 80% na venda dos produtos. Enquanto isso, os(as) artistas plásticos(as) alegam prejuízo e pedem que possam permanecer na Beira-Mar até que as obras de reurbanização iniciem, mas a volta deles(as) para a Beira-Mar parece impensável, seja antes ou depois das obras. O que esperamos é que, de fato, haja um projeto de revitalização e reocupação para as duas praias, garantindo apoio, visibilidade e manutenção de um espaço artístico que só pode ficar marginalizado em relação ao mar.

Thiago Fonsêca é poeta aprendiz, faz seu grão de poesia e acha bonita a palavra escrita

Filed under: Colunas, Mais e Além, Rumor da Língua, , , , ,

Sob o sol febril de Iracema – parte 1

IMGP0145edaeComeça lá pelo fim de junho: a faixa de areia salpicada de prédios com janelas de vidro espelhado recebe turistas de todas as partes do mundo. Não é novidade alguma para quem mora por aqui. Porém o +jabá passeou pela Praia de Iracema durante a Alta Estação e publica uma série de textos descompromissados sobre alguns encontros espontâneos com personagens que vão além dos vendedores ambulantes, turistas do Norte e Sul e jovens prostitutas – velhos conhecidos deste cartão postal fortalezense.

Por Yuri Leonardo (6J).

O clima abafado e o sol tinindo obrigam qualquer visitante a apertar os olhos. Os desbravadores da Praia de Iracema não podem pisar na areia calçando sapatos de couro ou vestindo calças sociais. Há risco de queimaduras de 3º grau, combustão instantânea ou algo que o valha. Após uma pergunta ao garçom e segundos ao desvendar o funcionamento de uma tranca-gambiarra do banheiro da barraca Satehut, ali numa altura boa da Av. Beira Mar, troco o traje de trabalho por um par de chinelos havaianos, bermuda e blusa abotoada pela metade.

Na areia, D. Maria Amélia da Conceição me pergunta se quero sentar na mesa onde ela está. Sol forte dificulta a vista. Recuso sorrindo e digo que estou esperando companhia, mas paro ao lado dela, entre europeus, americanos e brasileiros sulistas que turistavam durante uma segunda-feira de julho em Fortaleza. A senhorona solta: “é que amanha faço aniversário”. Quantos anos vai completar amanhã? “Setenta e cinco”, pontua.

Parabéns!, sorrindo. Despedida. Aceno. E procuro uma mesa vazia.

Receio de perguntar se vai passar o resto da vida vendendo flores na praia.

Já fizeram até reportagem sobre ela – contou depois, quando sentou à minha mesa minutos após nosso primeiro encontro.

IMGP0157ae

D. Maria Amélia diz “eu te amo” para turistas do norte europeu que se bronzeavam. Uma das estrangeiras não entende e encara a quase-75-anos, que veste um blusão com uma figurinha curiosa de braços abertos e uma legenda ABRAÇA-ME. Repete: “eu te amo, bonita, eu te amo”. As turistas trocam frases em grunhidos nórdicos. Não dão dinheiro algum à Dona Amélia “pra ajudar a comprar bombom e chilito pra vender aqui na praia amanhã”.

Uns minutos de conversa. Ela se levanta e segue pela areia, para garantir os 75 anos no dia seguinte.

A senhora vai trabalhar mesmo amanhã, no seu aniversário? “É…”, coça a cabeça de cabelinhos ralos, branco, cinza, preto, sol apertando os olhos de qualquer um. E Amélia se mistura à luz intensa que domina a vista branca, confundindo o corpo junto aos estilhaços brilhantes dos óculos escuros dos turistas, de cascos de cerveja dourados na areia e das cadeiras de plástico branco das barracas.

Filed under: Cidade, , , , , , , ,

MaisJabá no Twitter

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.