Discorrendo sobre o retorno à figura do autor para a compreensão do texto literário, a coluna de hoje questiona o luto pela morte do escritor e a infinidade de biografias, cadernos de viagens e outras reminiscências da memória de literatos falecidos
Quando, no revolucionário ano de 1968, Roland Barthes anuncia a morte do autor, já antes anunciada por Maurice Blanchot, abre espaço a uma série de discussões das quais não pretendo me esquivar, mas julgo ser impossível tratar de todas ao mesmo tempo. Falava ele sobre a inutilidade de se recorrer à figura do escritor para ler o texto literário, pois se se permite que o fantasma do autor acompanhe a leitura da obra, cai-se na tentação de, num ato mediúnico, perguntar: afinal, o que quiseste tu dizer com isso?
A ideia do autor como o portador das respostas do texto literário é, hoje, um crasso erro, pois estamos a querer achar uma resposta, um significado, uma interpretação que seja a correta, subentendo-se que todas as outras especulações sejam falsas, passivas de condenação por calúnia. Devemos ser leitores(as) que participam efetivamente do texto literário, construindo, destruindo e reconstruindo possibilidades de leituras, sem nos limitarmos a buscar um dedo indicador que nos aponte o certo e o errado.
A literatura deve se eximir da responsabilidade de carregar consigo regras, leis, códigos, preceitos e princípios, sejam eles morais, éticos, políticos, religiosos ou sociais, pois a partir do momento em que a literatura pretendesse agir sobre o real, vã tentativa fadada ao eterno fracasso, não lhe seria permitida a plurissignificação, a linguagem dúbia, a ambiguidade, qualidades estas que talvez sejam fundantes dos textos literários. O livro literário não pode mais ser tomado como um manual de regras ou instruções ou tampouco como um utensílio portador de mensagens. Tudo isso porque não há ninguém por trás daquelas letras ditando. O autor está morto e só o que há é o texto.

"Saber o mapa astrológico de Fernando Pessoa, por exemplo, não é conhecê-lo mais" (ILUSTRAÇÃO Yuri Leonardo)
No entanto, passados mais de 40 anos, ainda vive-se uma espécie de luto pela morte do autor. O que vemos é uma constante busca de ressuscitá-lo, através de entrevistas ou de biografias, querendo-se saber qual seria sua sentença para a obra. Enquanto isso, muitas vezes, a obra em si fica lá, deixada de lado, quiçá condenada ao esquecimento, logo, empobrecida. Não raro vemos poemas, crônicas, contos e romances, enfim, textos de escritores(as) vários(as) que vagam por aí sem um mínimo par de olhos que se aventurem a encará-los e morrem, muitas vezes, antes do autor.
Enquanto isso, há uma busca desenfreada para se desenterrar toda e qualquer herança de escritores(as) outros(as) que já morreram fisicamente, seja para complementar sua obra ou para manter viva a figura progenitora das obras que são lidas tanto quanto ou mais que suas biografias. E então são publicadas fotografias, anotações de diário, cartas, lista de compras, conta bancária (sobre estas geralmente não há muito o que se dizer) etc. Rascunhos, se o acham, não importam se estão malfeitos, incompletos, borrados, meio apagados ou com erros ortográficos, são o verdadeiro tesouro! Tudo isso como uma forma de homenagear o escritor, mantê-lo vivo.
Não pretendo questionar o apego pessoal que muitas vezes há por parte do(a) leitor(a), até porque há escritores(as) cuja meta literária se entrecruza com sua meta pessoal, e a idolatria constitui parte natural e consequente desse processo. É quando seu livro na lista dos mais vendidos e seu nome na lista dos mais citados é uma honra que se equivale e é um atestado de qualidade.
O que questiono é quando há uma supervalorização desses aspectos em detrimento de uma exploração mais qualitativa do que foi produzido pelo(a) artista, pois este(a) é imortalizado a partir do conhecimento e da difusão de suas obras e não mergulhando nos seus infinitos particulares. Saber o mapa astrológico de Fernando Pessoa, por exemplo, não é conhecê-lo mais. Ler Bernardo Soares, talvez.
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