Através das lembranças de moradores antigos, o +jabá termina a série sobre os casarões do Jacarecanga. As memórias de Thomaz Pompeu Sobrinho, o Liceu e as tertúlias nos trazem um pouco do que foi este bairro de Fortaleza
por Thaís de Freitas
“Bom mesmo era no tempo de 39”. Foi assim que Dona Maria, moradora do Jacarecanga há 70 anos, começou a relatar suas memórias acerca do bairro. Dona Maria, sobrinha do ex-prefeito de Fortaleza Manuel Cordeiro Neto, lembra-se de quando o Jacarecanga era um bairro social, habitado por famílias tradicionais da época. “O bairro era mais calmo. Os muros eram baixos, e nunca entrou ninguém pra roubar”, diz.
Em 1939, o Jacarecanga vivia o auge da sua história. Foi ali que Thomaz Pompeu Sobrinho construiu a sua casa com influência da arquitetura italiana e foi seguido por amigos ricos, que resolveram sair do centro da cidade para construir mansões em moldes europeus. Dona Maria recorda-se de quando o bonde transitava pelo Jacarecanga e os meninos subiam apenas para divertir-se. “A gente pegava o bonde da Praça do Liceu até o fim da linha, porque o torneiro era conhecido e deixava”, diz Dona Maria com sorriso estampado. Na época, o torneiro era chamado de ‘Mamãe dorme só’, porque era filho único e não queria trabalhar à noite, alegando que a mãe não podia dormir só.
O morador José Dias lembra que o Jacarecanga de antigamente era como a Aldeota de hoje. Seu José é da época que a casa de Pedro Philomeno Gomes fazia a alegria da criançada, com piscina e parque. “Os meninos iam tomar banho de piscina na casa do Philomeno. Philomeno era um homem bom”, disse. A moradora Márcia Sales, que reside em uma das vilas próximas à Escola de Artes e Ofícios há mais de 25 anos, conta que Seu Philomeno Gomes, já idoso, saia pela manhã para visitar os casarões que foram dele e a Vila São José, construída para abrigar os operários de sua fábrica de tecido São José.
Márcia conta ainda que a casa onde mora hoje é a antiga residência do político Virgílio Távora, e que o que parece vidro nas portas é, na verdade, cristal. A moradora tenta conservar a casa como era antigamente, mas lamenta que nem todos tenham a consciência de preservar a memória dos casarões. “Quem entende um pouco de história, dá valor à história, não vai derrubar um casarão desses”, diz.

Vila onde residiu o político Virgílio Távora, ao lado da atual Escola de Artes e Ofícios Thomaz Pompeu Sobrinho
Os casarões são derrubados, no Jacarecanga, principalmente, para dar lugar a prédios. Mesmo a casa de Pedro Philomeno foi derrubada para dar espaço a um prédio residencial e a alguns prédios comerciais. Dona Maria puxa da memória que a “senhora” de Pedro Philomeno, mais conhecida como Santinha, era católica e caridosa. Dona Maria diz que os moradores de 1939 iam a uma capelinha pequena para rezar, onde hoje está localizada a Igreja da Marinha.
Outra memória é a dos estudantes do Liceu antigo, que faziam greves devido aos ônibus da Linha Jacarecanga. “O pobre do Pedreira [Oscar Pedreira] se danava. Os liceístas desmanchavam o calçamento em greve pelas passagens”, diz Dona Maria, defendendo que as greves dos estudantes daquela época eram bem diferentes das atuais. Oscar Pedreira era o dono da Linha Jacarecanga, que transitava dentro do Jacarecanga e passava pela Praça do Ferreira.
O médico-veterinário Evandro Frota, estudante do Liceu do Ceará em 1969 e 1970, lembra-se da dificuldade para ingressar no Liceu. Evandro chegou ao colégio quando o sistema ainda não era misto, homens estudavam no período da manhã e mulheres no período da tarde. Em 1969/70, período de ditadura militar, os alunos do Liceu eram vigiados, pois, tradicionalmente, lideravam movimentos políticos. O Liceu formou, ao longo do tempo, alunos como Clóvis Beviláqua, Eleazar de Carvalho, Parsífal Barroso, Antônio Girão Barroso e Lúcio Alcântara.
O médico-veterinário contou ainda sobre as Tertúlias da Vila São José. “Os moradores do centro iam para a Vila São José e, para cortar caminho, passavam por dentro do cemitério. Eu próprio cansei de fazer isso”, lembra. Além das tertúlias, havia festas em casas de família, que se enchiam de intrusos. “Tinha gente que passava o fim-de-semana procurando tertúlias”, diz. Além das festas, o Kartódromo animava os moradores do bairro. Localizado em frente à Marinha, o Kartódromo era aberto ao público. “Quem voltava da Praia de Iracema, freqüentada pela elite na época, terminava o dia assistindo às corridas de kart”, completa.
Quando questionado se sente muita saudade do Jacarecanga antigo, Evandro não demora a responder. “Dá pra sentir saudade. Você passa e vê que os bangalôs antigos continuam do mesmo jeito. Isso é o que provoca mais saudades. O Corpo de Bombeiros não mudou nada e a própria estrutura do Liceu continua a mesma”, relembra, com ar de quem volta sempre ao lugar que o acolheu na juventude.
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