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Um jornalístico organizado por alunos do curso de Comunicação Social da UFC

Onde está a toupeira, doutor Emir?

FESTCULTUFC

Em conferência durante o II Festival UFC de Cultura, o cientista político e professor Emir Sader discorreu sobre a crise do neoliberalismo na América Latina e as questões mal resolvidas do Brasil frente ao capital sedento por lucro; na plateia, plamas em estalar de dedos e extensas contextualizações de perguntas foram frequentes; e, diacho, cadê a tal da toupeira?!

por Yuri Leonardo (6J)

Em meio ao burburinho no Auditório da Reitoria da UFC, Emir Sader fitava o público do alto do palco. O cientista político e professor esperou a fala do representante do Diretório Central dos Estudantes, Rodrigo Santaella, uma ponderação de quase quinze minutos sobre como ser um jovem militante de esquerda nos tempos atuais. O conferencista tomou a frente do evento e decidiu que faria seu discurso em pé, inclinado sobre um singelo púlpito de madeira: “isso é costume de professor: assim eu desperto atenção e vejo a cara de vocês”.

Com o título “A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana”, a palestra foi parte do Festival UFC de Cultura e promoveu o novo livro do pensador. Antes das críticas ao neoliberalismo, o autor disse que a imprensa não dá vez para livros que promovem o pensamento de esquerda – os exemplares do livro homônimo à conferência seriam vendidos após o evento, logo na entrada do auditório. Dado algum momento durante a palestra, ouviria-se um impaciente e ansioso “e cadê a toupeira?” perdido pelo auditório.

A ressaca braba do neoliberalismo

É difícil resumir o conteúdo da palestra. Capital não gera crescimento, apenas mais capital. Lucro apenas. E isso não gera empregos e crescimento, mas somente mais e mais papéis de especulação. Sader criticou duramente, entre uma porção de coisas, o sistema das bolsas de valores e todo o aparato capitalista que você e eu ouvimos bastante durante esses tempos de crise econômica.

Após se embriagarem de neoliberalismo, as nações da América Latina estariam sofrendo a ressaca após a farra (do grupo mais rico), sendo categorizadas pelo palestrante em dois grupos: os governos que assinaram tratados de comércio com os Estados Unidos, e países que privilegiaram tratados regionais. Peru, Colômbia e México foram apontados por Sader como “desastres latino-americanos”, tendo crescimento na economia, mas queda nos índices sociais. “Quer coisa mais anos noventa do que isso?”, brincou.

Quanto ao Brasil, “o Estado foi quem segurou (a economia) após a crise, e não o empresariado”. O retorno do Estado para o centro do debate e um quadro de melhorias durante o Governo Lula teriam sido fatores que contribuíram para uma certa estabilidade do nosso país, segundo o conferencista.

No entanto ainda existiriam três grandes questões que não foram resolvidas: a hegemonia do capital financeiro no país, o modelo de agronegócio exportador, e a “ditadura da mídia privada”. Para quem se propusesse a resistir contra o neoliberalismo no Brasil, o Sader cientista político relembrava: “democratizar é desmercantilizar”. E para a plateia universitária, o Sader professor alfinetou com a falta de contrapartida social dos universitários após usufruirem de anos e anos de ensino público.

Ilustra Resenha Emir Sader 12nov2009

(ILUSTRAÇÃO Yuri Leonardo)

Como na lista do DATA

Entre uma e outra provocação ao comportamento hipócrita da classe média brasileira, à compulsão neoliberal pelo lucro ou à figuras em alta de partidos políticos, a plateia soltava risos ou reagia com estalar de dedos – uma prática tida como elegante por alguns, porém esquisita por dar a impressão de que você está chamando seu bicho de estimação. Neste ponto, dois sujeitos se bicavam nas últimas fileiras do público, inquietos com as afirmações do pensador de esquerda, planejavam agir durante o momento cedido às perguntas do público.

Rodolfo Oliveira e Bruno Pontes, agitadores da lista de e-mails dos estudantes de Comunicação Social da UFC, mais conhecida como lista do DATA, esquematizavam perguntas em pedaços de papel. Conhecidos pela defesa ao neoliberalismo, expressa em intermináveis discussões virtuais às vezes levadas a sério ou culminando em promessas de cerveja no próximo bar, não era raro vê-los sacudindo nas poltronas ou balançando impacientemente os joelhos durante a palestra.

Visivelmente nervoso, Rodolfo perguntou a Emir Sader qual o destino da posse do jornal Folha de São Paulo após a morte do seu fundador (o povo tomar o jornal x uma votação para a escolha do novo dono x entregar o jornal ao Estado), em referência ao exemplo usado pelo conferencista ao ilustrar a herança da posse do jornal como uma dificuldade para a imprensa livre e democrática. Sader rebateu a acusação feita pelo rapaz de que a imprensa pública seria “chapa branca” e comentou que um modelo ideal de imprensa livre seria aquele que fosse público, escolhido e construído pelo povo.

E tomem cinco minutos

Outros questionamentos – dessa vez com menos chacota e mais exaltados – foram levantados pela plateia em blocos de três perguntas. “Faz logo a pergunta!”. Contextualizações de até cinco minutos foram exibidas, imprescindíveis em palestras sobre o tema. “Afe Maria, faz a pergunta!”. Registro aqui o surgimento de curiosas construções semânticas como “contra-hegemonia pré pós-neoliberal” ou “democracia democrática representativa da república”. Próximo do fim do último bloco, parte da plateia já se levantava e seguia em direção às portas. “Bora, meu filho, pergunta!”.

Terminada a conferência, sob os andaimes de uma obra inacabada na entrada do auditório da reitoria, Rodolfo abraçava a namorada entre uma roda de velhos conhecidos. Questionado sobre a resposta da sua pergunta na palestra, o recém formado jornalista não escondeu sua insatisfação. “Ele fugiu da resposta”, respondeu, contrariado.

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» E a toupeira? -  “A toupeira, animal com problemas de visão, circula embaixo da terra sem fazer alarde e surge onde menos se espera. Sua figura aparece em obras de pensadores tão díspares quanto Shakespeare e Marx. Segundo Sader, ‘tal imagem remete às incessantes contradições intrínsecas do capitalismo, que não deixam de operar, mesmo quando a ‘paz social’ – a das baionetas, a dos cemitérios ou a da alienação – parece prevalecer’”, do site da editora Boitempo, que publicou o livro de Emir Sader.

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Bendita herança

Rumor da língua

Kafka acreditou que seus escritos nunca seriam publicados após a morte; Nabokov queria ver queimado seu romance O original de Laura, que ganha edição no próximo dia 17. A história da Literatura prova que eles não foram os únicos a ter testamentos traídos. Acompanhe, na coluna de hoje, uma discussão sobre o destino dos espólios literários

por Thiago Fonseca, colunista do +jabá

Esta semana li algumas notícias a respeito do destino de alguns espólios de escritores que me fizeram pensar bastante sobre o assunto. Em Portugal, não é lá muito difícil encontrarmos leilões de famosos espólios. Há um ano foi a leilão parte do espólio de Fernando Pessoa, contendo manuscritos e objetos pessoais do poeta. A família havia se comprometido a vendê-los ao governo português, mas os constantes anúncios sobre a possibilidade de abertura do leilão inflou o preço atribuído aos lotes e impossibilitou a negociação.

A pergunta é: se cabe à família decidir para onde vão os espólios de Pessoa, por que não destiná-los, por exemplo, à Casa Fernando Pessoa, espaço mais do que apropriado para abrigar as heranças do escritor? Os espólios de Cardoso Pires e Jorge de Sena, outros escritores portugueses, que, infelizmente, não dispõem de um espaço assim, foram doados à Biblioteca Nacional. A família não cobrou um centavo, pois sabiam do valor bibliográfico e cultural que os manuscritos destes dois tinham e a noção de documentação e preservação falou mais alto do que interesses outros. Aliás, manuscritos preservam e enriquecem bem mais a memória do escritor do que adquirir, por exemplo, uma fotografia deste.

Já um manuscrito de José Régio está a ser leiloado em Portugal esta semana. Que rumo terá? O rumo do lance de maior valor. O manuscrito sairá de um recinto pessoal para outro. Que contribuição esse leilão dará aos estudos literários? Os leitores e leitoras de José Régio não poderão ter acesso a um manuscrito seu por não ter dinheiro para adquiri-lo? Destino diferente tomará um manuscrito de Vladimir Nabokov, que até então estava guardado em um cofre forte na Suíça. O filho de Nabokov, Dmitri, resolveu confiá-lo a uma editora e no dia 17 deste mês teremos o lançamento de O original de Laura, um romance inacabado que deveria ter sido queimado e não foi, assim como o famoso Lolita, que foi salvo da fogueira pela esposa do escritor.

Uma versão conta que Kafka morreu obcecado pela ideia de que era necessário queimar seus escritos quando morresse e que havia deixado essa missão a encargo de seu melhor amigo, Max Brod. Uma segunda versão afirma que, de fato, houve o desejo e o pedido, mas para que se queimasse apenas seus escritos pessoais e os ficcionais incompletos. O que importa é que Brod não realizou o desejo de Kafka e foi atrás de publicar o legado kakfiano, entre os quais estão incluídas as obras-primas O processo e O castelo. Se houve algum contrato entre os dois, apenas ele foi endereçado ao fogo.

É importante, no entanto, lembrar que nem tudo de Franz Kafka foi publicado. O tesouro completo ficou a encargo de Brod, que, antes de morrer, decidiu deixá-lo de herança à sua mulher, Esther Hoffe, falecida ano passado. Após a morte de Hoffe, suas filhas herdaram os secretos espólios kafkianos, guardados a sete chaves. Ninguém sabe o que exatamente as irmãs Hoffe guardam. Atualmente, há uma querela entre Alemanha e Israel sobre o direito de posse do manuscrito de O Processo, que foi vendido por Esther Hoffe ao Arquivo de Literatura Alemã de Marbach.

Israel alega que tem o direito, histórico e legal, de ter acesso ao manuscrito, pois, segundo sua legislação, é necessário que, quando haja um material de importância para o país ou para a comunidade judaica, o Estado fotografe-o antes que ele vá para o exterior, o que não ocorreu quando da venda realizada por Esther Hoffe aos alemães. Ainda assim, Israel pode reivindicar tão-somente o acesso a este manuscrito, os demais, confidenciais, terão o destino que as irmãs Hoff bem entenderem. E eu não as condenaria se o destino fosse, enfim, a fogueira.

Thiago Fonseca é poeta aprendiz, faz seu grão de poesia e acha bonita a palavra escrita.

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Festival homenageia centenário de Patativa do Assaré

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O II Festival UFC de Cultura homenageia, a partir de segunda-feira (9) até sábado (13), o centenário de Patativa do Assaré; na lista de atrações, exposição no MAUC sobre o poeta e show de Fagner

A Universidade Federal do Ceará (UFC) será palco de diversas manifestações artísticas no II Festival UFC de Cultura. Com entrada gratuita aos estudantes, o evento, que acontece a partir da próxima segunda-feira (9) e vai até dia 13 deste mês, contará com uma programação que inclui conferências, shows, exposições, mostra de cinema e oficinas, além de lançamentos de livros e mostras de bandas universitárias.

A proposta de realizar a primeira edição do festival surgiu no início do ano passado, quando o Diretório Central de Estudantes (DCE) procurou o então reitor Ícaro Moreira para discutir uma mostra competitiva de música dos estudantes da UFC.

Com a iniciativa, o professor Ícaro e o Coordenador de Comunicação Social e Marketing da UFC, Paulo Mamede, resolveram agregar outras ações na área de cultura ao projeto. “A ideia foi pensar um evento que entrasse para o calendário cultural da Universidade e para o calendário cultural do estado do Ceará”, pontua Mamede.

A participação do DCE, principal idealizador do Festival, já foi solicitada pela gestão recém-empossada para duas ocasiões do evento: participação na mesa de Conferência do sociólogo e cientista político, Emir Sader, na quarta-feira (11), e realização de uma performance na mesma noite do show do Mundo Livre S/A, na sexta-feira (13).

Patativa, segurança e financiamento

O evento recebeu o nome de Festival Ecos de 68 em 2008, relembrando “o ano que não terminou” e o legado das manifestações culturais do período. Desta vez o II Festival UFC de Cultura terá como mote o centenário do Patativa do Assaré (1909 – 2002) – cujo rosto passou a estampar o muro do Centro de Humanidades 2 e os bancos do Bosque do Centro de Humanidades 1. Como parte das homenagens ao poeta do Assaré, o diretor do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (MAUC), Pedro Eymar, prepara o espaço para oferecer a exposição Patativa Centenário.

O festival terá a segurança reforçada através da contratação de serviço privado, além da segurança terceirizada da própria UFC. De acordo com o Coordenador de Infraestrutura e Transporte, Roldão Gomes, o campus do Pici recebe quarenta seguranças a mais; a Concha Acústica, trinta – e cinquenta a mais para reforçar o apoio durante o show do cantor Fagner. Paulo Mamede ainda acrescenta: “Nós vamos evitar, por questão de segurança, a venda de bebida alcoólica dentro [da Concha Acústica]“.

O financiamento dos custos do Festival tem maior parte da sua origem na Lei do Mecenato – lei de incentivo à cultura do Governo do Estado. Banco do Nordeste, Banco do Brasil, Prefeitura Municipal de Fortaleza, Funcap (Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico) e a empresa de turismo Acetur também ajudaram a custear os gastos.

De custeio interno da universidade, contribuíram o Cetrede (Centro de Treinamento e Desenvolvimento), a FCPC (Fundação Cearense de Pesquisa e Cultura) e a Astef (Associação Técnico-Científica Engenheiro Paulo de Frontin).

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» O que é a Lei do Mecenato – É o fomento das atividades culturais através da junção entre recursos públicos e particulares que tenham renúncia fiscal, fixada em no máximo 2% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias. Na ação, o Estado renuncia parte do imposto devido em favor de projetos e ações culturais da sociedade civil.

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