+jabá!

Um jornalístico organizado por alunos do curso de Comunicação Social da UFC

A língua internacional

por Thiago Fonseca, colunista do +jabá

A Deutsche Welle, empresa que muito respeito, quer não apenas propagar ao mundo a voz da Alemanha, mas desenvolver projetos relacionados ao multilinguismo, trabalhando com a ideia de que a língua, ao invés de ser uma barreira para o diálogo interpessoal, pode ser um instrumento de aproximação, sendo, pois, saudável que tenhamos várias vozes, com diferentes melodias, vocabulários e fonemas. A ideia da língua como organismo vivo, portanto, é respeitada e querer matar alguma é crime. A ordem é crescer e multiplicar.

O que se tenta é valorizar a diversidade cultural e linguística existente em nosso planeta. A maneira mais sutil, porém mais eficiente de se dominar um povo ou uma nação é enlaçando-o culturalmente; e a língua, carregada de ideologias, como bem nos mostra Bakhtin, é uma forma de dominação hedionda, e por isso concordo plenamente com o multilinguismo. Acho que o fato de termos milhares de línguas e dialetos espalhados por esse mundo não é um castigo divino consequente da ânsia de queremos ficar mais próximo do céu através da torre de Babel, e sim um bem humano.

Na Europa, por exemplo, há uma política educacional que busca cada vez mais o aprendizado de outras línguas desde cedo a fim de os europeus melhor se comunicarem com os outros países, mas o incentivo, até certa altura louvável, pois o movimento até então era sempre unilateral, é sempre para o conhecimento das línguas oficiais dos países-membros da União Europeia, sendo ignorada a bagagem linguística proveniente das Américas, da África da Ásia ou Oceania, que desembarca frequentemente no Velho Mundo. A partir disso, costuma-se questionar como favorecer uma melhor integração entre nativos e estrangeiros.

Aí me espanta saber que justamente na Europa o Esperanto ainda não seja considerado língua oficial. Espanta-me porque o Esperanto, para quem não sabe, é uma língua planejada pelo polonês Luís Lázaro Zamenhof para facilitar a comunicação entre os povos sem favorecer a nenhuma língua nacional, preservando as culturas ameaçadas pela dominação linguística. A escolha de certas línguas como oficiais não é nada democrática. Os países, política e economicamente mais poderosos, têm seus idiomas valorizados e impostos a quem quiser ou precisar manter contato com seus nativos.

Por que nos organismos internacionais apenas uma dúzia de idiomas são levados em conta? São estes, por acaso, culturalmente superiores? O Esperanto então é uma solução para que todos estejam em pé de igualdade e tenhamos emissores e receptores emitindo um código eficiente de comunicação, pois quando nos submetemos a aprender qualquer idioma, já devemos estar conscientes de que é impossível ter a mesma naturalidade, espontaneidade e eficiência de um falante nativo. O Esperanto, por não pertencer a nenhum país, não tem esperantistas nativos e não há privilégio a nenhuma cultura específica.

Isso não significa de modo algum que o Esperanto pretenda suprimir as demais línguas. Ele quer exatamente manter todas vivas a partir do momento em que não deseja ressaltar nenhuma em detrimento de outra. Seu objetivo é apenas facilitar a comunicação entre todos os povos da maneira mais justa e pacífica possível. Tudo isso pode até soar utópico para alguns, mas saibam que o Esperanto existe e é praticado em todos os continentes. E você pode começar a aprendê-lo quando quiser. É rápido, fácil e extremamente agradável.

Filed under: Rumor da Língua

Reciclagem em Hollywood

por Thiago Fonseca, colunista do +jabá

Nesta coluna, quero compartilhar a insatisfação que o público-crítico e o crítico-público sentem em relação à produção improdutiva de Hollywood. Não tenho aspiração alguma a ser escritor e crítico de cinema, como o foi Vinicius de Moraes, por exemplo, mas Hollywood já não é mais o mesmo paraíso cinematográfico do tempo de nosso querido Poetinha. Já faz algum tempo que a produção hollywoodiana virou uma espécie de metonímia para produção de filme em massa e para a massa. Larga escala e baixo nível crítico levam à inevitável perda de qualidade.

Até então, produção hollywoodiana significava justamente o oposto: grandes filmes, com grande elenco e enormes orçamentos. Pois bem, este último item parece, hoje, nortear o rumo de Hollywood. A ordem é não desperdiçar dinheiro. Nada mais coerente em tempos de crise econômica mundial, assim como também deve não soar estranho o fato de Hollywood adotar a reciclagem como meta.

Ora, fazer cinema sempre exige algum orçamento e, por isso, trata-se de um investimento arriscado, pois não há nenhuma cartilha que te garanta público para o devido retorno financeiro. A ordem, portanto, é trabalhar com algo que já temnha um público definido e garantido. Uma opção é a aposta nas sequências e a outra saída são as refilmagens de clássicos. Neste processo, pode-se atualizar o filme, arriscando-se a perder sua aura original, ou, caminho mais fácil, regravá-lo, cena a cena, mudando apenas elenco e, se for o caso, dando uma melhorada nos efeitos especiais, podendo não ser nada atraente, pois dará a impressão de que já vimos esse filme antes.

Algumas refilmagens podem, sim, dar um novo fôlego à produção original, mas, infelizmente, não é o que ocorre na maioria dos casos, pois fazer esforço para essa nova respiração seria sair da enclausura da refilmagem como mera cópia e lançar-se a uma nova perspectiva, atualizando não apenas o elenco e o cenário, mas o roteiro como um todo; seria arriscar-se à recriação e à inovação. Mas, como foi dito, correr riscos não é a tônica de Hollywood e os processos de refilmagem parecem refletir o receio de perder dinheiro e a enorme falta de criatividade que assola os(as) produtores(as).

As refilmagens parecem já estar institucionalizadas na cultura cinematográfica e, apesar de alguns resultados deploráveis, por enquanto parece ser um negócio bem sucedido, pois a indústria não abre mão e o público continua comparecendo, talvez levado pela afetividade e curiosidade de rever um filme que há muito o marcou. Para os mais novos, pode ser uma oportunidade, não a melhor, de conhecer a obra original (peço, por favor, que busquem a fonte daquilo que assistem ou lêem); para os mais velhos, pode ser a oportunidade de atestar que já não se fazem mais filmes como antigamente.

A já chamada “estética da repetição” ataca Hollywood por todos os lados e de todas as maneiras. Um rara produção original que consiga ser realizada já sabe seu provável destino: refilmagem ou sequência. A falta de criatividade e de arrojo fica evidente também na prática de simplesmente pegar filmes que não sejam norte-americanos e adaptá-los ao mercado do tio Sam;e de sair adaptando obras literárias que estão na lista dos mais vendidos. Mas isto é assunto para outra conversa.

Filed under: Rumor da Língua

O espaço da cultura

por Thiago Fonseca, colunista do +jabá

A revista eletrônica Capitu discutiu mês passado se há espaço para a cultura nos meios de comunicação brasileiros. João Gabriel Lima, da Bravo!, afirmou que o jornalismo cultural tem pouco leitor, embora haja um número considerável de revistas de literatura, artes e cultura em geral sendo publicadas no Brasil atualmente, como a Bravo!, a Cult, a EntreLivros, a piauí, a Língua Portuguesa, a Discutindo Literatura, a Set, a Rolling Stone, entre outras.

Além disso, há a mídia eletrônica, responsável pela difusão mais ampla e livre de conteúdos culturais. Neste ramo, foram lembrados nomes como o Digestivo Cultural, o Overmundo, a Cronópios, o Omelete e o Burburinho, sem falar dos blogues, que são muitos e podem ser criados e mantidos por qualquer um(a) que queira produzir ou divulgar conteúdo ligado ao campo das artes. O problema, então, não seria mais o espaço inexistente ou o alcance ineficiente, mas os leitores que assim o são?

De fato, o Brasil não é um país caracteristicamente de leitores e, consequentemente, o público-alvo das publicações culturais é restrito, às vezes, sendo composto tão-somente por aqueles(as) que estão inseridos(as)no meio cultural, mas não podemos dizer que ele inexiste. Aliás, existe e é bastante fiel, por isso, sempre há espaço para quem estiver disposto a entrar na ciranda. O difícil é entrar na ciranda sem saber dançar a dança. Ninguém quer comprar nada que lhe, se for informativo, fale de coisas que já se sabe; ou se for formativo, repasse conceitos sem o mínimo senso crítico.

É como o mercado editorial científico, pois seu público é tão restrito quanto, mas as publicações estão aí, cada qual garantindo seu espaço por ter uma forma diferente de abordar as novidades. Não podemos confundir revistas, jornais e suplementos de cultura com fascículos de enciclopédia. Portanto, há que se levar em consideração o(a) leitor(a), pesquisando quais são suas expectativas, que tipo de informação ele quer encontrar, qual sua faixa etária, qual sua formação etc. A famosa pesquisa de mercado, já que, no final das contas, o que se quer é vender um produto.

Alcino Leite Neto, ex-editor do Mais!, da Folha de S.Paulo, e responsável pelo site Cronópios, expõe os três tipos de leitor(a) que essas produções encontram. O primeiro seria aquele que deseja informações gerais sobre os eventos e produtos culturais. Esse público quer informações corretas, simples, novas, se possível breves, sobre tudo o que há de mais relevante no mercado cultural do país e também do mundo. Portanto, trata-se de um público muito heterogêneo; uma revista desse tipo precisa atender um consumidor de formação tanto mediana quanto o erudito.

O segundo público ele chama de leitor participante. Trata-se de um sujeito que não só tem interesse nos fatos, mas vê a leitura como uma forma de participação no mundo e nos debates públicos. Então, independentemente da linha ideológica desse sujeito, ele tem interesse em artigos que estimulem a sua reflexão a respeito de temas de interesse geral, da saúde, de política, etc. É um leitor para o qual os fatos concretos e a boa informação de cunho jornalístico é tão importante quanto o debate crítico.

O terceiro tipo é o leitor especializado. Ele procura aquilo que é do interesse dele mais forte. Essas publicações especializadas podem adotar uma linguagem mais fechada ou mais aberta. O problema dessas revistas é que quanto mais especializada, mais ela tem problemas de distribuição, de manutenção, etc. Provado, pois, está que o leque para falar sobre cultura é grande e nada restrito. Daí o exemplo do +jabá, que abre as portas para que eu atravesse a rua e dê também meus pitacos sobre o mundo da cultura.

Leia também as colunas anteriores

Filed under: Colunas, Rumor da Língua, , , ,

MaisJabá no Twitter

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.