Kafka acreditou que seus escritos nunca seriam publicados após a morte; Nabokov queria ver queimado seu romance O original de Laura, que ganha edição no próximo dia 17. A história da Literatura prova que eles não foram os únicos a ter testamentos traídos. Acompanhe, na coluna de hoje, uma discussão sobre o destino dos espólios literários
por Thiago Fonseca, colunista do +jabá
Esta semana li algumas notícias a respeito do destino de alguns espólios de escritores que me fizeram pensar bastante sobre o assunto. Em Portugal, não é lá muito difícil encontrarmos leilões de famosos espólios. Há um ano foi a leilão parte do espólio de Fernando Pessoa, contendo manuscritos e objetos pessoais do poeta. A família havia se comprometido a vendê-los ao governo português, mas os constantes anúncios sobre a possibilidade de abertura do leilão inflou o preço atribuído aos lotes e impossibilitou a negociação.
A pergunta é: se cabe à família decidir para onde vão os espólios de Pessoa, por que não destiná-los, por exemplo, à Casa Fernando Pessoa, espaço mais do que apropriado para abrigar as heranças do escritor? Os espólios de Cardoso Pires e Jorge de Sena, outros escritores portugueses, que, infelizmente, não dispõem de um espaço assim, foram doados à Biblioteca Nacional. A família não cobrou um centavo, pois sabiam do valor bibliográfico e cultural que os manuscritos destes dois tinham e a noção de documentação e preservação falou mais alto do que interesses outros. Aliás, manuscritos preservam e enriquecem bem mais a memória do escritor do que adquirir, por exemplo, uma fotografia deste.
Já um manuscrito de José Régio está a ser leiloado em Portugal esta semana. Que rumo terá? O rumo do lance de maior valor. O manuscrito sairá de um recinto pessoal para outro. Que contribuição esse leilão dará aos estudos literários? Os leitores e leitoras de José Régio não poderão ter acesso a um manuscrito seu por não ter dinheiro para adquiri-lo? Destino diferente tomará um manuscrito de Vladimir Nabokov, que até então estava guardado em um cofre forte na Suíça. O filho de Nabokov, Dmitri, resolveu confiá-lo a uma editora e no dia 17 deste mês teremos o lançamento de O original de Laura, um romance inacabado que deveria ter sido queimado e não foi, assim como o famoso Lolita, que foi salvo da fogueira pela esposa do escritor.
Uma versão conta que Kafka morreu obcecado pela ideia de que era necessário queimar seus escritos quando morresse e que havia deixado essa missão a encargo de seu melhor amigo, Max Brod. Uma segunda versão afirma que, de fato, houve o desejo e o pedido, mas para que se queimasse apenas seus escritos pessoais e os ficcionais incompletos. O que importa é que Brod não realizou o desejo de Kafka e foi atrás de publicar o legado kakfiano, entre os quais estão incluídas as obras-primas O processo e O castelo. Se houve algum contrato entre os dois, apenas ele foi endereçado ao fogo.
É importante, no entanto, lembrar que nem tudo de Franz Kafka foi publicado. O tesouro completo ficou a encargo de Brod, que, antes de morrer, decidiu deixá-lo de herança à sua mulher, Esther Hoffe, falecida ano passado. Após a morte de Hoffe, suas filhas herdaram os secretos espólios kafkianos, guardados a sete chaves. Ninguém sabe o que exatamente as irmãs Hoffe guardam. Atualmente, há uma querela entre Alemanha e Israel sobre o direito de posse do manuscrito de O Processo, que foi vendido por Esther Hoffe ao Arquivo de Literatura Alemã de Marbach.
Israel alega que tem o direito, histórico e legal, de ter acesso ao manuscrito, pois, segundo sua legislação, é necessário que, quando haja um material de importância para o país ou para a comunidade judaica, o Estado fotografe-o antes que ele vá para o exterior, o que não ocorreu quando da venda realizada por Esther Hoffe aos alemães. Ainda assim, Israel pode reivindicar tão-somente o acesso a este manuscrito, os demais, confidenciais, terão o destino que as irmãs Hoff bem entenderem. E eu não as condenaria se o destino fosse, enfim, a fogueira.
Thiago Fonseca é poeta aprendiz, faz seu grão de poesia e acha bonita a palavra escrita.
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